5º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

A mim, ó Deus, fazei justiça, defendei a minha causa contra a gente sem piedade; dos homem perverso e traidor libertai-me, porque sois, ó Deus, o meu socorro. (Sl 42,1s)

 

ORAÇÃO DO DIA

Senhor nosso Deus, dai-nos, por vossa graça, caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo. Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém

 

Leituras da Liturgia Eucarística: Ez 37,12-14; Sl 129; Rm 8,8-11; Jo 11,3-7.17.20-27.33b-45– Forma breve

 

EVANGELHO: Jo 11,1-7.17.20-27.33b-45– Forma breve

Naquele tempo, havia um doente, Lázaro, que era de Betânia, o povoado de Maria e de Marta, sua irmã. Maria era aquela que ungira o Senhor com perfume e enxugara os pés dele com seus cabelos. O irmão dela, Lázaro, é que estava doente.

As irmãs mandaram então dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”.

Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro. Quando ouviu que este estava doente, Jesus ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. Então, disse aos discípulos: “Vamos de novo à Judeia”.

Quando Jesus chegou, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”.

Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”.

Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”.

Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?”

Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.

Jesus ficou profundamente comovido e perguntou: “Onde o colocastes?”

Responderam: “Vem ver, Senhor”. E Jesus chorou. Então os judeus disseram: “Vede como ele o amava!”

Alguns deles, porém, diziam: “Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?”

De novo, Jesus ficou interiormente comovido. Chegou ao túmulo. Era uma caverna, fechada com uma pedra. Disse Jesus: “Tirai a pedra!”

Marta, a irmã do morto, interveio: “Senhor, já cheira mal. Está morto há quatro dias”.

Jesus lhe respondeu: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”

Tiraram então a pedra. Jesus levantou os olhos para o alto e disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me escutas. Mas digo isto por causa do povo que me rodeia, para que creia que tu me enviaste”.

Tendo dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!”

O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: “Desatai-o e deixai-o caminhar!”

Então, muitos dos judeus que tinham ido à casa de Maria e viram o que Jesus fizera, creram nele.

 

REFLEXÃO

“Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho deste quinto domingo de Quaresma narra-nos a ressurreição de Lázaro. É o ápice dos «sinais» prodigiosos realizados por Jesus: trata-se de um gesto muito, demasiado grande, claramente divino para ser tolerado pelos sumos sacerdotes, os quais, tendo sabido do facto, tomaram a decisão de matar Jesus (cf. Jo 11, 53).

Lázaro já estava morto há três dias; e às irmãs Marta e Maria Ele disse palavras que se gravaram para sempre na memória da comunidade cristã. Jesus diz assim: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem acredita em Mim, mesmo morrendo, viverá; todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente» (Jo 11, 25). Sobre esta Palavra do Senhor nós acreditamos que a vida de quem crê em Jesus e segue os seus mandamentos, depois da morte será transformada numa vida nova, plena e imortal. Assim como Jesus ressuscitou com o próprio corpo, mas não voltou a uma vida terrena, também nós ressurgiremos com os nossos corpos que serão transfigurados em corpos gloriosos. Ele espera por nós junto do Pai, e a força do Espírito Santo, que O ressuscitou, ressuscitará também quem estiver unido a Ele.

Diante do túmulo fechado do amigo Lázaro, Jesus «bradou em voz alta: Lázaro, sai para fora! E o morto saiu, com os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto com um sudário» (vv. 43-44). Este brado peremptório é dirigido a cada homem, porque todos estamos marcados pela morte, todos nós; é a voz d’Aquele que é o dono da vida e quer que todos «a tenhamos em abundância» (Jo 10, 10). Cristo não se resigna com os sepulcros que nos construímos com as nossas escolhas de mal e de morte, com os nossos erros, com os nossos pecados. Ele não se resigna a isto! Ele convida-nos, quase nos ordena, que saiamos do túmulo no qual os nossos pecados nos fizeram cair. Chama-nos insistentemente a sair da escuridão da prisão na qual nos fechamos, contentando-nos com uma vida falsa, egoísta, medíocre. «Sai!», diz-nos, «Sai!». É um bom convite à verdadeira liberdade, a deixar-nos alcançar por estas palavras de Jesus que hoje repete a cada um de nós. Um convite a deixar-nos libertar das «faixas», das faixas do orgulho. Porque o orgulho torna-nos escravos, escravos de nós mesmos, escravos de tantos ídolos, de tantas coisas. A nossa ressurreição começa por aqui: quando decidimos obedecer a este mandamento de Jesus saindo para a luz, para a vida; quando caem do nosso rosto as máscaras — muitas vezes nós estamos mascarados pelo pecado, as máscaras devem cair! — e não encontramos a coragem do nosso rosto original, criado à imagem e semelhança de Deus.

O gesto de Jesus que ressuscita Lázaro mostra até onde pode chegar a força da Graça de Deus, e portanto até onde pode chegar a nossa conversão, a nossa mudança. Mas reparai: não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos! Não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos! Recordai-vos bem desta frase. E podemos dizê-la todos juntos: «Não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos». Digamo-lo juntos: «Não há limite algum à misericórdia divina oferecida a todos». O Senhor está sempre pronto a levantar a pedra do sepulcro dos nossos pecados, que nos separa d’Ele, a luz dos vivos.” (Papa Francisco, Angelus, 06 de abril de 2014)

4º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

“Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações.” Is 66,10s

 

ORAÇÃO DO DIA

Ó Deus, que, por vosso Filho, realizais de modo admirável, a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam cheio de fervor e exultando de fé. Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém

 

Leituras da Liturgia Eucarística: 1Sm 16,1b.6-7.10-13ª; Sl 22; Ef 5,8-14; Jo 9,1.6-9.13-17.34-38

 

EVANGELHO: Jo 9,1.6-9.13-17.34-38

Naquele tempo, ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. E cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. E disse-lhe: “Vai lavar-te na piscina de Siloé” (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.

Os vizinhos e os que costumavam ver o cego — pois ele era mendigo — diziam: “Não é aquele que ficava pedindo esmola?” Uns diziam: “Sim, é ele!” Outros afirmavam: “Não é ele, mas alguém parecido com ele”.

Ele, porém, dizia: “Sou eu mesmo!”

Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: “Colocou lama sobre os meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!”

Disseram, então, alguns dos fariseus: “Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado”. Mas outros diziam: “Como pode um pecador fazer tais sinais?”

E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: “E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?” Respondeu: “É um profeta”.

Os fariseus disseram-lhe: “Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?” E expulsaram-no da comunidade.

Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: “Acreditas no Filho do Homem?” Respondeu ele: “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?” Jesus disse: “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo”. Exclamou ele: “Eu creio, Senhor!” E prostrou-se diante de Jesus.

 

REFLEXÃO

“Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje apresenta-nos o episódio do homem cego de nascença, a quem Jesus confere a vista. Esta longa narração tem início com um cego que começa a ver e termina — isto é curioso — com alguns presumíveis videntes que continuam a ser cegos na alma. O milagre é narrado por João em apenas dois versículos, porque o evangelista quer chamar a atenção não apenas para o prodígio em si mesmo, mas para aquilo que acontece em seguida, para os debates que isto suscita; e também para o falatório, pois muitas vezes uma obra, um gesto de caridade provoca murmurações e debates, porque alguns não querem ver a verdade. O evangelista João quer chamar a atenção para aquilo que acontece até nos dias de hoje, quando se realiza uma obra boa. O cego curado é primeiro interrogado pela multidão admirada — viram o milagre e interrogam-no — e depois pelos doutores da lei, que interrogam também os seus pais. No final, o cego curado chega à fé, a maior graça que lhe é concedida por Jesus: não apenas de ver, mas de O conhecer, de O ver como «a luz do mundo» (Jo 9, 5).

Enquanto o cego se aproxima gradualmente da luz, os doutores da lei, ao contrário, afundam cada vez mais na sua cegueira interior. Fechados na sua presunção, já julgam possuir a luz; por isso, não se abrem à verdade de Jesus. E fazem de tudo para negar a evidência. Põem em dúvida a identidade do homem curado; em seguida, negam a obra de Deus na cura, alegando como desculpa que Deus não age aos sábados; chegam até a duvidar que aquele homem fosse cego de nascença. O seu fechamento à luz torna-se agressivo e acaba na expulsão do homem curado para fora do templo.

Ao contrário, o caminho do cego é um percurso por etapas, que começa com o conhecimento do nome de Jesus. Nada mais sabe dele; com efeito, diz: «Aquele homem que se chama Jesus fez lodo e ungiu-me os olhos» (v. 11). A seguir às perguntas insistentes dos doutores da lei, considera-o primeiro um profeta (v. 17) e em seguida um homem que está próximo de Deus (v. 31). Depois de ter sido afastado do templo, excluído da sociedade, Jesus encontra-se novamente com ele e «abre os seus olhos» pela segunda vez, revelando-lhe a sua própria identidade: «Eu sou o Messias», assim lhe diz! Nesta altura, aquele que era cego exclama: «Creio, Senhor!» (v. 38), e prostra-se diante de Jesus. Trata-se de um trecho do Evangelho que mostra o drama da cegueira interior de muitas pessoas, inclusive da nossa, porque às vezes também nós vivemos momentos de cegueira interior.

Às vezes a nossa vida é semelhante à existência do cego que se abriu à luz, que se abriu a Deus, que se abriu à sua graça. Por vezes, infelizmente, é um pouco como a vida dos doutores da lei: do alto do nosso orgulho julgamos os outros, e até o próprio Senhor! Hoje, somos convidados a abrir-nos à luz de Cristo para dar fruto na nossa vida, para eliminar os comportamentos que não são cristãos; todos nós somos cristãos, mas todos nós — todos! — às vezes temos comportamentos não cristãos, atitudes que são pecados. Devemos arrepender-nos disto, eliminar estes comportamentos para caminhar decididamente pela vereda da santidade. Ela tem a sua origem no Baptismo. Com efeito, também nós fomos «iluminados» por Cristo no Baptismo, como no-lo recorda são Paulo, a fim de nos podermos comportar como «filhos da luz» (Ef 5, 8), com humildade, paciência e misericórdia. Aqueles doutores da lei não tinham humildade, nem paciência e nem sequer misericórdia!

Hoje, quando voltardes para casa, sugiro-vos que pegueis no Evangelho de João para ler este trecho do capítulo 9. Isto far-vos-á bem, porque assim vereis este caminho da cegueira para a luz, e a outra senda errada, rumo a uma cegueira ainda mais profunda. Interroguemo-nos: como é o nosso coração? Tenho um coração aberto ou fechado? Aberto ou fechado para Deus? Aberto ou fechado para o próximo? Temos sempre em nós mesmos algum fechamento que nasce do pecado, dos equívocos, dos erros. Não devemos ter medo! Abramo-nos à luz do Senhor! Ele espera-nos sempre para nos levar a ver melhor, para nos dar mais luz, para nos perdoar. Não podemos esquecer isto! Confiemos à Virgem Maria o caminho quaresmal para que também nós, como o cego curado, com a graça de Cristo, possamos «vir à luz», progredir rumo à luz e renascer para uma vida nova.” (Papa Francisco, Angelus, 30 de março de 2014)

3º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

Tenho os olhos sempre fitos no Senhor, porque livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz. (Sl 24,15s)

 

ORAÇÃO DO DIA

Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém

 

Leituras da Liturgia Eucarística: Êx 17,3-7; Sl 94; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42

 

EVANGELHO: Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42

Naquele tempo, Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta de meio-dia. Chegou uma mulher de Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”.

Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato, os judeus não se dão com os samaritanos.

Respondeu-lhe Jesus: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”.

A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar água viva? Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?”

Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.

A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”. “Senhor, vejo que és um profeta!” Os nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar”.

Disse-lhe Jesus: “Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus.

Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”.

A mulher disse a Jesus: “Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas”. Disse-lhe Jesus: “Sou eu, que estou falando contigo”.

Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus. Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa da sua palavra. E disseram à mulher: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo”.

 

REFLEXÃO

“Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje apresenta-nos o encontro de Jesus com a mulher samaritana, que aconteceu em Sicar, junto de um antigo poço onde a mulher ia todos os dias buscar água. Naquele dia, encontrou lá Jesus, sentado, «cansado devido à viagem» (Jo 4, 6). Ele diz-lhe imediatamente: «Dá-me de beber» (v. 7). Deste modo supera as barreiras de hostilidade que existiam entre judeus e samaritanos e rompe os esquemas do preconceito em relação às mulheres. O pedido simples de Jesus é o início de um diálogo genuíno, mediante o qual Ele, com grande delicadeza, entra no mundo interior de uma pessoa à qual, segundo os esquemas sociais, não deveria nem sequer ter dirigido a palavra. Mas Jesus fá-lo! Jesus não tem medo. Jesus quando vê uma pessoa vai em frente, porque ama. Ama-nos a todos. Nunca se detém diante de uma pessoa por preconceitos. Jesus coloca-a diante da sua situação, sem a julgar mas fazendo-a sentir-se considerada, reconhecida, e deste modo suscitando nela o desejo de ir além da rotina diária.

A sede de Jesus não era tanto de água, quanto de encontrar a Samaritana para lhe abrir o coração: pede-lhe de beber para evidenciar a sede que havia nela mesma. A mulher comove-se com este encontro: dirige a Jesus aquelas perguntas profundas que todos temos dentro, mas que muitas vezes ignoramos. Também nós temos tantas perguntas para fazer, mas não encontramos a coragem de as dirigir a Jesus! A Quaresma, queridos irmãos e irmãs, é o tempo oportuno para olhar para dentro de nós, para fazer emergir as nossas necessidades espirituais mais verdadeiras, e pedir a ajuda do Senhor na oração. O exemplo da Samaritana convida-nos a expressar-nos do seguinte modo: «Jesus, dá-me aquela água que me saciará eternamente».

O Evangelho diz que os discípulos ficaram surpreendidos que o seu Mestre falasse com aquela mulher. Mas o Senhor é superior aos preconceitos, e por isso não receou falar com a Samaritana: a misericórdia é maior do que o preconceito. Devemos aprender bem isto! A misericórdia é maior do que o preconceito, e Jesus é muito misericordioso, tanto! O resultado daquele encontro junto do poço foi que a mulher se transformou: «deixou a sua ânfora» (v. 28), com a qual ia buscar água, e foi depressa à cidade contar a sua experiência extraordinária. «Encontrei um homem que me disse todas as coisas que eu fiz. Será o Messias?». Estava entusiasmada. Tinha ido buscar água ao poço, e encontrou outra água, a água viva que jorra para a vida eterna. Encontrou a água que procurava desde sempre! Corre à aldeia, àquela aldeia que a julgava, a condenava e a rejeitava, e anuncia que encontrou o Messias: alguém que lhe mudou a vida. Porque cada encontro com Jesus nos muda a vida, sempre. É um passo em frente, um passo mais próximo de Deus. E assim cada encontro com Jesus nos muda a vida. É sempre assim.

Também nós encontramos neste Evangelho o estímulo para «deixar a nossa ânfora», símbolo de tudo o que aparentemente é importante, mas que perde valor diante do «amor de Deus». Todos temos uma, ou mais que uma! Pergunto a vós, e também a mim: «Qual é a tua ânfora, a que te pesa, a que te afasta de Deus?». Deixemo-la um pouco de lado e com o coração ouçamos a voz de Jesus que nos oferece outra água, outra água que aproxima do Senhor. Somos chamados a redescobrir a importância e o sentido da nossa vida cristã, que começou com o baptismo e, como a Samaritana, a testemunhar aos nossos irmãos. O quê? A alegria! Testemunhar a alegria do encontro com Jesus, porque disse que cada encontro com Jesus muda a nossa vida, e também cada encontro com Jesus enche de alegria, aquela alegria que vem de dentro. E o Senhor é assim. E contar quantas coisas maravilhosas o Senhor faz no nosso coração, quando temos a coragem de pôr de lado a nossa ânfora.” (Papa Francisco, Angelus, 23 de março de 2014)